=>Carpe diem quam minimum credula postero

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

A CADERNETA VERMELHA

Por vezes idealizamos em jovem uma vida ideal, no entanto, com o passar dos anos a realidade muda. Esta história que aqui trago hoje, e que desconheço o autor toca-me muito particularmente...
 
 
O carteiro estendeu o telegrama.
 
José Roberto não  agradeceu e enquanto abria o envelope, uma profunda ruga sulcou-lhe a testa.
Uma expressão mais de surpresa do que de dor tomou-lhe conta do rosto.
Palavras breves e incisas:
- Seu pai faleceu. Enterro 18horas. Mamãe;
 Jose Roberto continuou parado, olhando para o vazio.
 Nenhuma lágrima lhe  veio aos olhos nenhum aperto no coração.

 Nada!
Era como se houvesse morrido um estranho.
 Por que nada  sentia pela morte do  velho?

Com um turbilhão de pensamentos confundido-o,  avisou a esposa, tomou  o ónibus e se foi, vencendo os silenciosos quilómetros  de estrada enquanto a  cabeça girava a mil.
No íntimo, não queria ir ao funeral e, se estava indo era apenas para que a  mãe não ficasse mais amargurada.
 Ela sabia que pai e  filho não se davam bem.
A coisa havia chegado ao final no dia em que, depois de mais uma chuva
de acusações, José Roberto havia feito
as malas e partido  prometendo nunca mais  botar os pés naquela casa.
Um emprego razoável, casamento, telefonemas à mãe pelo  Natal, Ano Novo ou  Páscoa...

Ele havia se desligado da família não pensava no pai e a última  coisa na vida que desejava na vida
era ser parecido com  ele.

 O velório:  poucas pessoas.
A mãe está lá, pálida, gelada, chorosa.

Quando reviu o filho, as lágrimas  correram silenciosas, foi um abraço de desesperado silêncio.

Depois, ele viu o corpo sereno
envolto por um lençol de rosas vermelho,   como as que o pai gostava
de cultivar.
José Roberto não verteu uma única lágrima, o coração não pedia.

 Era como estar diante de um desconhecido um estranho, um...
O funeral: o sabiá cantando, o sol se pondo.
Ele ficou  em casa com a mãe até  a noite, beijou-a e prometeu que voltaria trazendo netos e esposa para  conhecê-la.

Agora, ele poderia voltar à casa, porque  aquele que não o amava,  não estava mais lá para dar-lhe
conselhos ácidos nem para
 criticá-lo.
Na hora da despedida a mãe colocou-lhe algo pequeno e rectangular na mão

 Há mais tempo você poderia ter recebido isto - disse. 
 
 Mas, infelizmente só  depois que ele se foi eu encontrei entre os guardados mais importantes...
Foi um gesto mecânico que, minutos depois de começar a viagem, meteu a não  no bolso e sentiu o presente.

 O foco mortiço da luz do  bagageiro, revelou  uma pequena caderneta de capa
vermelha.

Abriu-a curioso.
Páginas amareladas.
Na primeira, no alto, reconheceu a  caligrafia firme do  pai:
"Nasceu hoje o José Roberto.
Quase quatro quilos!  O meu primeiro filho,  um garoto!
Estou orgulhoso de ser o pai daquele
que será a minha  continuação na Terra!".
À medida que folheava, devorando cada anotação, sentia um aperto na boca do estômago, mistura de dor e perplexidade,
pois as imagens do passado ressurgiram firmes e
atrevidas como se acabassem de acontecer!
"Hoje, meu filho foi para escola.
 Está um homenzinho!  Quando eu vi ele de uniforme, fiquei
emocionado e desejei-lhe um futuro  cheio de sabedoria.
 A vida dele será diferente da minha,
que não pude estudar  por ter sido  obrigado a ajudar meu pai.
Mas para meu filho desejo o melhor.
 Não permitirei que a vida o castigue".
Outra página
 "Roberto me pediu uma bicicleta, meu salário não dá, mas ele  merece porque é estudioso e esforçado.

Fiz um empréstimo que espero pagar  com horas extras".
José Roberto mordeu os lábios.
 Lembrava-se da sua intolerância,
das brigas feitas para ganhar a
sonhada bicicleta.

Se todos os  amigos ricos tinham uma,  por que ele também não poderia
ter a sua?
"É duro para um pai castigar um filho
e bem sei que ele poderá me odiar
por isso;
entretanto, devo educá-lo para
 seu próprio bem."  
 "Foi assim que aprendi a ser um
homem honrado e esse é  o único modo que sei  de ensiná-lo".
José Roberto fechou os olhos e viu toda a cena quando por causa de uma  bebedeira, tinha ido para a cadeia e naquela noite, se o pai não tivesse  aparecido para impedi-lo de ir ao baile com os amigos...
Lembrava-se apenas do automóvel retorcido e manchado de  sangue que tinha  batido contra uma árvore...

 Parecia ouvir sinos, o choro da
 cidade inteira enquanto quatro caixões seguiam lugubremente para o  cemitério.
As páginas se sucediam com ora curtas, ora longas anotações,
 cheias das respostas que revelam o quanto, em silêncio e amargura,  o pai o havia amado.
 O "velho" escrevia de madrugada.
Momento da solidão, num grito de silêncio, porque era desse jeito que ele era,
 ninguém o havia ensinado a chorar e a dividir suas dores,
o mundo esperava que fosse durão
para que não o julgassem nem  fraco e nem covarde.  
 E, no entanto, agora José Roberto estava tendo a prova que, debaixo daquela  fachada de fortaleza havia um coração tão terno e cheio de amor.
A última página.

Aquela do dia em que ele havia  partido:    - "Deus, o que fiz de errado para meu filho me odiar tanto?

Por que sou considerado culpado,
se nada fiz, senão tentar  transformá-lo em um homem de  bem?"
 "Meu Deus, não permita que esta injustiça me atormente para sempre.
 Que um dia ele possa me compreender e perdoar por eu não ter sabido ser
o pai que ele merecia ter."
Depois não havia mais anotações e as folhas em branco davam a ideia de que o  pai tinha morrido naquele momento,
 José Roberto fechou  depressa a caderneta,  o peito doía.
 O coração parecia haver crescido tanto,  que lutava para escapar pela boca.

 Nem viu o ónibus entrar na  rodoviária, levantou aflito e  saiu quase correndo porque precisava
 de ar puro para respirar
A aurora rompia no céu e mais um dia começava.    "Honre seu pai para que os dias de sua velhice sejam tranquilos!" - certa  vez ele tinha ouvido essa frase e jamais havia reflectido o na profundidade  que ela continha.

 Em sua egocêntrica cegueira de  adolescente, jamais havia  parado para pensar em verdades mais profundas.
 Para ele, os pais eram descartáveis e sem valor como as embalagens que são  atiradas ao lixo.
 Afinal, naqueles dias de pouca reflexão
 tudo era juventude, saúde, beleza,
musica, cor, alegria,  despreocupação, vaidade.

 Não era ele um semideus?
Agora, porém, o tempo o havia envelhecido, fatigado e também tornado pai aquele falso herói.
 De repente.
 No jogo da vida, ele era  o pai e seus atuais contestadores.
Como não havia  pensado nisso antes?
Certamente por não ter tempo, pois andava muito ocupado  com os negócios,
a luta pela sobrevivência, a sede
 de passar fins de  semana longe da cidade  grande, a vontade de mergulhar no silêncio sem precisar  dialogar com os  filhos.
Ele jamais tivera a ideia de comprar uma cadernetinha de capa vermelha
para anotar uma frase sobre
seus herdeiros, jamais lhe  havia passado pela cabeça escrever
que tinha orgulho daqueles
 que continuam o seu nome.

 Justamente ele, que se considerava o mais completo pai da Terra?
Uma onda de vergonha quase o prostrou por terra numa derradeira lição de  humildade.
 Quis gritar, erguer procurando agarrar o  velho para sacudi-lo e  abraçá-lo, encontrou apenas
o vazio.
Havia uma raquítica rosa vermelha num galho no jardim de uma casa, o sol  acabava de nascer.

Então, José Roberto acariciou as  pétalas e lembrou-se da  mãozona do pai podando, adubando e cuidando com amor.
 Por que nunca tinha  percebido tudo aquilo antes?
Uma lágrima brotou como o orvalho, e erguendo os olhos  para o céu dourado,  de repente, sorriu e desabafou-se
numa confissão aliviadora:

"Se Deus me mandasse escolher,
 eu juro que não queria ter tido  outro pai que não fosse  você velho!

 Obrigado por tanto amor, e me perdoe por  haver sido tão cego."
 

by pdivulg às 00:04
link do post | comentar | favorito
|
3 comentários:
De Galeriacores a 21 de Fevereiro de 2008 às 14:54
O grande problema de sempre é que muitas vezes desperdiçamos o nosso tempo em coisas banais e só damos valor às coisas depois de as perdermos. Sempre houve e sempre haverão filhos pródigos mas ainda bem que no fim Deus está disposto a esquecer tudo e a perdoar o que fizermos de mal.


De Peter15 a 21 de Fevereiro de 2008 às 23:17
"Filho és, pai serás, assim como fizeres, assim acharás"


De Ana a 21 de Fevereiro de 2008 às 23:34
=)


Comentar post

=>A Foto do dia

=>postas recentes

=> Mudança dos tempos

=> Ponto final

=> 95 Primaveras

=> Festa da Fé_Leiria 2010

=> Coleccionando flores....

=> Passatempo

=> Para onde vais Portugal

=> Os tempos mudam

=> O CÚMULO DA IRONIA .........

=> Anedota da Páscoa

=>arquivos

=> Outubro 2010

=> Julho 2010

=> Maio 2010

=> Dezembro 2009

=> Outubro 2009

=> Abril 2009

=> Fevereiro 2009

=> Janeiro 2009

=> Dezembro 2008

=> Novembro 2008

=> Outubro 2008

=> Maio 2008

=> Abril 2008

=> Março 2008

=> Fevereiro 2008

=> Janeiro 2008

=> Dezembro 2007

=> Novembro 2007

=> Outubro 2007

=> Setembro 2007

=> Julho 2007

=> Junho 2007

=> Maio 2007

=> Abril 2007

=> Março 2007

=> Fevereiro 2007

=> Janeiro 2007

=> Dezembro 2006

=> Novembro 2006

=> Outubro 2006

=> Setembro 2006

=> Março 2006

=>pesquisar

 

=>Outubro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


=>A passagem do dia

=>A citação

=>Escreva-me: pdivulg@sapo.pt

=>O Tempo por cá

=>Fases da lua


moon phases
 

=>Contador

=>mais sobre mim


=> Perfil

=> seguir perfil

. 6 seguidores

=>tags

=> todas as tags

=>O meu selo

PDivulg

SAPO Blogs

=>subscrever feeds